1) Quais foram as suas referências para a realização do filme?
As minhas referencias sobre Fernando Arrabal vêm desde que fiz a Escola de Teatro - UFBA e participei de um Coletivo Teatro da Encruzilhada, que tinha em Arrabal uma das suas referências mais fortes, junto com Augusto Boal, Vianinha (Oduvaldo Viana Filho), Gregório de Matos e Qorpo Santo (José Joaquim de Campos Leão). Fazíamos teatro de rua, com forte apelo político e social. Quando fui convidado para dirigir uma entrevista com Arrabal, voltei a ler O Arquiteto e o Imperador da Assíria (El arquitecto y el emperador de Asiria), que entendo como o seu mais belo texto, A Torre Ferida por um Raio (La torre herida por el rayo), assisti aos filmes Viva a Morte (1971) (Viva la muerte), Fando e Lis (1968) (Fando y Lis), dirigido por Alejandro Jodorowsky, e busquei informações no site do próprio autor e conversei com diretores locais que o encenaram.
2) Como pode ser definido o seu curta-metragem? Como ele foi estruturado?
O curta pode ser definido como um livre ensaio, cuja principal função é a de registrar o pensamento vivo desse grande autor. Para tal fim, reuni diretores de cinema e teatro da cena local, para que com ele conversassem e perguntassem sobre temas que emergiam de sua fala inicial. É um produto mais ligado à preservação do passado do que uma obra com pretensões radicais, afinal, radical é o próprio Arrabal.
3) Como foi trabalhar com uma personalidade tão singular quanto Fernando Arrabal?
Trabalhar com Arrabal foi uma experiência única, ter acesso à fonte tão rica, de momentos tão caros a nós que sempre amamos a liberdade e a vanguarda, foi altamente estimulante. Diferente do que ouvi falar do seu contato com a platéia gaúcha, ele foi extremamente generoso, gentil, acessível. Ao final, sem câmera, perguntei por que ele estava tão otimista e falando somente das coisas boas da vida e do teatro. Ele, ironicamente, disse que guardaria para o Rio Grande do Sul o momento de falar das coisas ruins. Saber da existência de um ser tão radical aos 75 anos me remoçou e me fez refletir sobre a grandeza da vida.
4) Em termos de conteúdo geral, o que pode ser aprofundado/discutido para a audiência do filme?
O registro pretende captar, de forma amorosa, o seu pensamento sobre o que ele quer falar, somente isso. Afinal ele fala de personagens e momentos históricos que envolvem todos nós, o Teatro do Absurdo, o Teatro Pânico, (o movimento revolucionário francês) Maio de 1968 e de seu amor por Luce (Moreau, sua esposa), entre outras coisas. Vale a pena ouvir este artista maior.
5) Alguma curiosidade de produção, comentário pessoal do diretor a acrescentar? Alguma coisa ficou diferente do planejado inicialmente?
A produção foi muito pequena e acionada de forma muito rápida. A Abará Produções é uma pequena e forte empresa local que deu o máximo de si para superar os obstáculos. A idéia inicial era trazer de Amparo, uma cidade no interior da Bahia, o Grupo Popular Negro Fugido, porém na última hora o grupo não pôde viajar, pois eles usam armas cenográficas e a policia impediu a viagem e seqüestrou as ditas “armas”. Perdemos então uma bela estrutura do Ensaio que era de um grupo que recebesse Arrabal e fizesse cenas mudas ao redor do entrevistado e entrevistadores. Localizamos daí o encontro no palco sagrada da Escola de Teatro da UFBA (Universidade Federal da Bahia), por onde já andou Glauber Rocha, Geraldo Del Rey, Ioná Magalhães, entre outros monstros sagrados da nossa cultura.