A fotografia principal de “Dois Andares”, dirigido pelo gaúcho Márcio Schoenardie, começa ao meio-dia do dia 26 de maio de 2008, no Cine Santander Cultural. A equipe acerta o início do trabalho, que prevê 12 horas divididas em diversas locações espalhadas por Porto Alegre (RS). “Vinte minutos para a preparação da luz”, avisa o diretor de fotografia, Pablo Escajedo. A atriz Carol Sudati exibe o figurino sob o olhar atento do diretor. Ela sai para se arrumar, enquanto o cineasta e o fotógrafo, discutem enquadramentos. Uma sessão de cinema pela ótica de uma solitária expectadora é uma das muitas peças que integram o ensaio visual que vai intercalar com os depoimentos dos convidados Beto Brant e José Padilha. Ao lado de isopores, refletores, tripés e cabos, Carol tem que manter o seu “interesse” pela tela. “Cara de quem está olhando filme”, diverte-se o diretor. “Olha um pouquinho mais para a esquerda. Sorrisinho, Carol”, orienta. Uma hora se passa e a atriz permanece na mesma posição, sentada sobre um saco de areia (escondido no banco) para deixa-la à altura da câmera.
Concluídas as primeiras imagens, Carol é erguida com um suporte de madeira, de frente para o projetor cinematográfico. A equipe acomoda-se dentro da pequena sala de projeção entre latas, carretéis e as ferramentas que fazem o cinema chegar ao público. Enquanto a fita 35mm desliza pelas intrincadas roldanas do aparelho, luzes coloridas formam desenhos no rosto da atriz. A seguir, são tiradas diversas fotografias “still” para complementar a ação. Encerradas as filmagens no cinema, o material é desmontado. A van da produção vai para a próxima locação.
Às 14h, iniciam-se os trabalhos no prédio do Ministério Público de Porto Alegre. Uma passarela do 14º andar é utilizada como locação. Paralela ao transitar dos inúmeros profissionais do lugar, a equipe cinematográfica prepara suas tarefas. Carol posa para fotos deitada no carpete, cercada pela paisagem espelhada pelos espessos vidros do corredor. Uma segunda estrutura de luz é montada dentro de um dos elevadores de acesso ao local. Uma câmera é instalada no cubículo. Duas horas de espera são previstas para o início da entrevista. “A idéia é criar um diálogo entre Beto Brant e José Padilha, sem eu aparecer”, explica Márcio Schoenardie, enquanto planeja com o fotógrafo uma tomada que vai do elevador até a passarela. Às 16h15min, chegam os cineastas acompanhados do produtor executivo Davi de Oliveira Pinheiro, entre outros membros da equipe. Bem dispostos e simpáticos, conversam com o diretor, que conduz o diálogo com aparente tranqüilidade. “Eu me senti um pouco intimidado, pois as duas personalidades são cineastas que, de uma maneira ou de outra, estariam me observando. Mas são pessoas boas, caras muito legais”, relembra o diretor.
O encontro começa no elevador, com o fotógrafo captando imagens em HDV (vídeo de alta resolução), enquanto a segunda câmera (uma Mini-DV, mais simples) imita um sistema interno de vídeo preto-e-branco. “Queria um tipo de depoimento diferente. Gosto da textura e da brincadeira com câmeras de segurança. O resultado sempre sai diferente do esperado”, acredita Schoenardie. O sucesso absoluto de “Tropa de Elite”, dirigido por Padilha, e o cinema alternativo de Brant são algumas das pautas da conversa. O universo cinematográfico e as semelhanças entre os cineastas estão resumidos no bate-papo do Ministério Público. “A direção das idéias dos dois caminha um pouco para o mesmo lado”, avalia o diretor. O diálogo segue até a passarela. Raios de sol invadem a sala para acentuar as expressões dos rostos dos entrevistados. Entre uma opinião e outra, Carol Sudati caminha como um dos transeuntes do prédio ao lado de Brant e Padilha. Na saída, o segundo ator do ensaio visual, Daniel Bacchieri, improvisa uma conversa com os dois ocupantes do elevador.
A partir das 18h, começam as filmagens noturnas de “Antes de Entrar...”. Bacchieri caminha até seu apartamento, seguido pela câmera. Logo depois, a morada do ator vira um set de filmagem pronto para Schoenardie gritar “ação”. Bacchieri fuma enquanto assiste ao clássico “Era uma Vez no Oeste” de Sergio Leone no DVD. O cinema do início da diária é substituído pela sala de estar. Por volta das 20h, a equipe se locomove para a Avenida Farrapos, conhecida área de prostituição porto-alegrense. Um dos postos de gasolina do local é utilizado como base para a filmagem de mais externas.
Carol volta à cena. Uma luz esverdeada, emprestada do próprio cenário, cobre o ator Bacchieri. Ele observa a atriz - agora caracterizada como uma prostituta - que atravessa uma das ruas transversais à avenida. Schoenardie faz sinais para a atriz vir e voltar. Quatro takes e uma pausa para arrumar o foco depois, os atores seguem firmes em seus personagens. Assistentes seguram os transeuntes para que nada saia errado. Seqüência completada, Carol protagoniza mais um ensaio fotográfico. A partir das 21h30min, a equipe segue para uma conhecida casa noturna porto-alegrense.
Na porta de entrada da boate, apenas um dos integrantes da equipe é parado pela segurança para identificação de idade: Leando Lefa, 26 anos. Tudo em ordem com o técnico de som, o trabalho prossegue. Funk e techno são a trilha sonora da noite. Luzes avermelhadas e marcas de rótulos de bebida envolvem o ambiente. Entre freqüentadores e garotas de programa, os técnicos aprontam a locação. Mais uma vez, o personagem de Bacchieri “persegue” Carol, desta vez em meio às mesas ocupadas de um bar. Perto da meia-noite, está encerrada a diária.