Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem - Ensaios Visuais

O Passageiro Obscuro de Davi de Oliveira Pinheiro

A seguir, o diretor brasileiro Davi de Oliveira Pinheiro fala sobre a concepção de O PASSAGEIRO OBSCURO. Davi também relembra sua entrevista com David Lynch, entre outros temas relacionados ao último curta-metragem da série ENSAIOS VISUAIS.

1) Quais foram as suas referências para a realização do filme?
A referência inicial foi a realização recente de meu longa-metragem, PORTO DOS MORTOS. Queria criar uma releitura através dos mesmos elementos visuais e sonoros, assim como do uso de alguns atores. A partir de uma base semelhante realizar algo completamente diverso em enfoque temático e estético. Enquanto PORTO DOS MORTOS é um filme popular e perifericamente experimental, O PASSAGEIRO OBSCURO é um filme experimental perifericamente popular. Aproveitei para aprofundar questões de ritmo, movimentação interna dos personagens, permitindo esta realização ser mais instintiva ainda que PORTO DOS MORTOS, sendo menos consciente de algumas limitações e autocensura narrativas que nossa racionalidade às vezes impõe.

2) Como pode ser definido o seu curta-metragem? Como ele foi estruturado?
Acredito ser a pior pessoa para definir verbalmente o curta-metragem. Afinal, minha função é defini-lo em forma audiovisual. Ficar procurando sentido numa entrevista pode ser um exercício em desmerecer o trabalho feito até agora. “Years to build and moments to ruin”, o velho Nicol Williamson, no papel do mago Merlin [em Excalibur (1981)], diria. Quanto à estruturação, estamos perdendo o sentido de magia com tanta explicação sobre as criações cinematográficas. Prefiro guardar o segredo, não por egoísmo, mas por valor à realização.

3) Como foi trabalhar com David Lynch?
Como trabalhar com toda minha equipe, só que com menos intimidade e amizade devido ao curto espaço de tempo. Pode parecer incomum, mas para mim foi muito mais especial e prazeroso o trabalho com a equipe que estar realizando um filme com a presença de um diretor de renome. Acho que a prioridade é essa. Valorizar mais o que se está próximo do que o que é distante a ti. Trabalhar com David Lynch foi legal, mas não se constitui em valor cinematográfico real instantâneo, o que há de especial nesse filme, eu devo ao trabalho duro de uma equipe de pessoas talentosas, que pensam cinema vinte e quatro horas por dia. Voltando à entrevista com David Lynch, o que dificultou é que meu inglês é rico em vocabulário, mas minha verbalização do mesmo é digna de Paul Verhoeven. Mas ele foi compreensivo e disse coisas legais que influenciaram pouco na estética do curta, mas incisivamente em sua temática.

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